sábado, 19 de setembro de 2009

* Relações cristalizadas na escola *



Quando se pensa educação, nada mais saudável que ver-se provocado à reflexão. Posto que nossos professores estimulam-nos a repensar o que nos parece irrefutável, a professora Caroline, em seu comentário sobre minha postagem acerca de Comênio, praticamente convidou-me a desconstruir certezas.

Acredito que praticamente na totalidade das esferas do conhecimento universal, o conhecido não justifica ignorar alternativas às práticas já estabelecidas em nossas escolas. As poucas exceções, algumas irrefutáveis, jamais perderão sua assertividade, não apenas por sua importância na trajetória da humanidade, mas porque continuam tão atuais quanto em sua época. Assim permanecem tanto os magníficos filósofos – Aristóteles, Platão, Sócrates – quanto os mestres que viveram sob a égide da divindade, Jesus Cristo e Buda. Isaac Newton e Einstein, Michelangelo e Da Vinci, Machado de Assis e Clarice Lispector, Freud e Jung, Madre Teresa e Francisco de Assis, entre outros, todos impingiram na história sua marca insubstituível. Entretanto, se ao novo se evitasse conferir uma aura de supremacia, nossa sociedade não teria a face que conhecemos: competitiva, extenuante, usurpadora - o esteio de um discurso pedagógico estéril. Estes são produzidos em diferentes momentos históricos e estabelecem critérios de legitimidade podendo ser tomados como verdade.

É interessante quando olhamos discursos que parecem tão contemporâneos e conseguimos localizar sua derivações. Acredito que um dos papéis do educador seja questionar tudo o que estabeleceu-se como atual e inovador.

Reporto-me às roupagens que recebe, de tempos em tempos, um mesmo discurso. Impossível não fazer referência a Santomé: "Termos como "interdisciplinariedade", "educação global", "centros de interesse", "metodologia de projetos", "globalização" sistematicamente aparecem, são descartados sem qualquer pudor para reaparecer com outra denominação. Aplica-se botox para que acreditemos estar diante da "pedra filosofal" da educação.

A utopia - "lugar que não existe" – cotidiana acerca de pensar um planejamento tendo como referencial a "realidade do aluno" frustra-me por ser factível mas a permanecer apenas como uma retórica cínica, a gargalhar de nossa conivência, de nosso silêncio.

É possível identificar que, invariavelmente, o projeto pedagógico das escolas mantém-se legitimado por mascarados discursos dominantes. Cabe ao professor não intimidar-se diante do cinismo da apregoada ingerência de todos os envolvidos na "construção" deste projeto. A verdadeira construção só poderá dar-se pelo enfrentamento do óbvio e aceito como inquestionável no processo de ensino-aprendizagem.

Um inquietante receio do professor que frente à provocação de despir-se de sua relação de poder entre quatro paredes e além delas (a causar toda forma de estresse no seio familar quando o aluno e sua família percebem-se reféns dos conceitos atribuídos exclusivamente pela capacidade do primeiro de corresponder às expectativas do professor), não apenas representa, mas é a justificativa de manter o que está posto. Não raro, ao deparar-se com a fala questionadora das relações hierárquicas entre os atores envolvidos na práxis pedagógica, talvez por agarrar-se de forma desnecessária ao que é familiar, sente-se paralisado o professor frente a necessidade de resignificar sua prática e "arriscar-se" a ver os educandos como seus pares.

A título de ilustração de minha afirmação das relações já cristalizadas nas escolas, pergunto: quem de nós não conhece a dinâmica do texto em sala de aula, mais precisamente o que está previsto de forma inflexível após a leitura ou contação de uma boa história? Percebi na pergunta de meus alunos um vazio em minha prática: “Vai ter perguntas depois, "né" professor?” Ou seja, o apreendido desde a tenra chegada à escola formataram neste aluno que uma história só se presta a preceder uma lista de perguntas.

Por fim, breves reflexões aos questionamentos da nossa professora Caroline:

1) O que o aluno deseja?

Se ainda não direcionamos tal questionamento ao próprio aluno, permaneceremos no seguro terreno das conjecturas a respeito.

2) Como ensinar o que o aluno deseja?

Permitindo a este subestimado educando que nos indique tanto “o que” quanto o “como” pensar nossas estratégias de ensino aprendizagem.

3) E o currículo? Não seria este um artefato cultural que produz desejos de aprender?

Sem sombra de dúvida. Contudo, permanece o currículo como um desenho pedagógico exclusivamente nas mãos do professor.


SANTOMÉ, Jurjo Torres. As origens da modalidade de currículo integrado. In:______. Globalização e interdisciplinaridade: o currículo integrado. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998, p.9-23.

Fonte do desenho no topo da postagem: HARPER, Babette et al. Cuidado, Escola! São Paulo: Brasiliense, 1980

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

* Saída de Campo - Proposta 1 *


Nesta noite de segunda-feira concluímos as entrevistas aplicadas pelo grupo 12 com todos os professores da EJA da Escola Santos Dumont (nome fictício) e com a Equipe Diretiva, a qual se ocupou em nos fornecer informações acerca da instituição.

O envolvimento dos professores e da equipe foi extraordinário. A supervisora escolar reservou uma hora da reunião mensal de avaliação e planejamento para que se fizesse claro o objetivo do trabalho proposto pela interdisciplina de EJA.

Primeiramente, utilizando-me de um projetor e notebook, fiz um apanhado acerca da agenda deste semestre. Para tanto, fiz uso do rico material que consta na página de apresentação da interdisciplina. Percebi entre os professores uma considerável surpresa com a quantidade e, principalmente, qualidade das atividades e reflexões pensadas pela equipe.

A contextualização deste trabalho que iniciou nossa saída de campo ocorreu após esta primeira explanação. Inteirados da relevância de cada etapa de nossa pesquisa, percebe-se a importância conferida à entrevista pela qualidade das respostas em cada questão.

Ocorre que experimentou-se no grupo de professores um resultado que não era explícito ou talvez sequer esperado: a entrevista acabou gerando uma posterior reflexão sobre o planejamento, a metodologia, as estratégias de avaliação e as temáticas trabalhadas por cada integrante do corpo docente e da equipe como um todo, assim como sua relação com os alunos.

As próximas etapas da saída de campo serão a observação de uma prática em uma turma de EJA desta escola e a entrevista com os discentes.

As respostas destes alunos virão justamente confrontar-nos com o "estereótipo de adulto, muito provavelmente correspondente ao homem ocidental, urbano, branco, pertencente a camadas médias da população, com um nível instrucional relativamente elevado e com uma inserção no mundo do trabalho em uma ocupação razoavelmente qualificada" que via de regra carregamos conosco. (Oliveira, 1999, p.61).


Referência Bibliográfica

OLIVEIRA, Marta Kohl de, (1999), Jovens e
adultos como sujeitos de conhecimento e aprendizagem, Revista Brasileira de Educação, nº 12.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

CONHEÇA BEM, EDUQUE MELHOR


Faz 21 anos que leciono. Posso dizer que em todo este tempo 18 foram dedicados a trabalhar com a 4ª série (não o 4º ano). Cheguei a um momento no qual poderia desenvolver todo um ano letivo sem sequer fazer um planejamento (plano de aula mesmo). Constatação da experiência e leituras constantes sobre o objeto de estudo desta etapa. Entretanto, procurei esquivar-me de tão tentadora possibilidade e segui preparando-me de forma adequada para desenvolver minhas atividades. Tudo parecia resolvido.

Lembram daquele conceito bem básico de Química, a decantação? Pois é isso: na medida em que o tempo transcorre, geralmente ocorre uma decantação das ansiedades, do receio, da insegurança. Porém, percebi ao longo desta caminhada, que embora tivesse esta pretensão de conhecer tão bem o planejamento de tal série, não conhecia meus alunos. Não me refiro exatamente ao nome de cada um, padrões de comportamento, habilidades, etc. Eu não conhecia a criança nas diferentes faixas de idade!

Conheça Bem Eduque Melhor é um título significativo em se tratando de uma obra que pretende, e atinge plenamente seu intento, posto que oferece ao professor conhecer de modo claro e profundo as diferentes necessidades e fases do desenvolvimento das crianças. A autora Angela Cristina Munhoz Maluf lembra que precisamos permitir à crianças e jovens que se revelem através do que possuem. O livro traz um perfil das crianças e jovens por idade, nos fazendo refletir sobre suas necessidades, maneira de pensar, forma de apropriarem-se do mundo a seu redor e questões como o egocentrismo, próprio das crianças. Mais do que isso, está também dividido em capítulos que fomentam reflexão. Exemplos:

Como pais e educadores se vêem?

Como crianças e jovens vêem pais e educadores?

Como crianças e jovem aprendem?

Crianças e jovens transmitem mensagens especiais;

O saber educar;

A educação no lar e na escola;

Aspectos do temperamento da criança;

Características do desenvolvimento infantil;

Adolescência;

Aspectos da delinquência juvenil;

A importância da auto-estima;

As oportunidades de escolha;

Falando sobre sexo;

Pais não podem ignorar seu papel;

Inteligência e amor para com crianças e jovens.

E seguem outras excelentes abordagens sobre este universo que é a criança e o jovem. Faltava-me, compartilho com vocês, uma apropriação mais profunda deste. A obra, da Editora Vozes, é de leitura fácil e de uma (re)descoberta a cada página. Esta é uma sugestão de livro neste momento para fomentar-mos reflexão acerca de nossos docentes.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

*Refletindo o papel da EJA*

Vivemos sob a égide da competitividade, quase que imersos em uma compulsão inconsciente (?) do sucesso a qualquer preço. Somos ao mesmo tempo vítimas e algozes em uma cultura de consumo e descarte, tanto do material, do imaterial e de nossos pares. No caso de seres humanos, usa-se (quando conveniente), ignora-se (ao tornar-se desnecessário) e exclui-se (quando almeja o que parece ser apenas nosso). Deste modo, vemos nascer e ampliar-se uma camada da sociedade alijada dos mínimos direitos, em favor da ávida apropriação de bens culturais, sociais, econômicos e políticos por outra, grafológica e autodenominada culta por excelência e exclusividade.
Tal estigma social, tão presente que se torna impossível não percebê-lo em nossa volta, lembra-nos que temos uma divida social para com todos aqueles que deixaram de frequentar a escola em função de escorchantes necessidades que determinara de forma ultrajante: permanecer na escola significava não sobreviver.

Evadido da escola e excluído de uma sociedade que o coisificara, explorando-o de forma indigna enquanto mão de obra barata, quando não compelindo-o à atividades ilícitas, é este o aluno que busca na EJA um termo para tamanho ultraje social. É este abismo social entre iletrados e uma sociedade grafocêntrica que a EJA almeja reparar. A apropriação de códigos escritos é de uma valor tamanho que desacomoda o indivíduo, estimulando-o a fomentar ferramentas intrínsecas a uma abordagem qualificada em seu cotidiano social e profissional. Inegavelmente, a apreensão tanto da leitura quanto da escrita desdobra-se em um leque de resultados muito particular em cada docente, mas todos agregam à sua auto-estima a percepção de que se está a reverter uma lógica capitalista e desumanizadora. Passando a negar uma pretensa e triste fatalidade pessoal, conquistam o que estivera presente apenas àqueles cuja sobrevivência não depreende da força de trabalho quando deveriam frequentar uma instuição de ensino.

O pressuposto da criação da EJA não é oferecer ao indivíduo uma salvaguarda dos estigmas causados por anos de expropriação de sua cidadania, mas despertar neste mesmo indivíduo o princípio intrínseco da igualdade.

Ao oferecer mais do que alfabetização, a EJA pensa seu fazer pedagógico pelo viés da participação docente nos espaços políticos, folclóricos e culturais, promovendo paulatinamente seu acesso a bens reservados, até então, somente aos iniciados e, obviamente, alfabetizados. Estabelecida uma relação equitativa nesta sociedade da qual faz parte, a acomodação e o já citado fatalismo não mais fazem parte das opções conscientes de nossos alunos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

*Comênio sempre atual*




Vivemos em uma sociedade do consumo e do descarte. Assumimos que necessitamos de algo para, assim que surja uma novidade, esquecermos o que nos encantara anteriormente.

No terreno das ideias não raro somos assolados por modismos. Cada década parece ser marcada por um mosaico de novas teorias importadas, geralmente em processo falimentar assim que aportam em nosso País, justamente por vivermos sob uma égide capitalista também na pedagogia, numa busca incessante de novos paradigmas.

Sob tal enfoque, obviamente seria uma tarefa hercúlea ter um mínimo do tempo e atenção alheios para preceitos escritos em 1638. No terreno da educação, confere-se importância ao que diz respeito à nossa contemporaneidade. Uma destas "modernidades" institui que conheçamos a realidade de nossos alunos e que a partir de uma pesquisa sócio-antropológica, tenhamos condições de nos propriarmos dos anseios da comunidade escolar para bem planejarmos nosso ano letivo.

Pois há mais de 300 anos, o "pai" da Pedagogia justamente nos orientava para a importância de partirmos da percepção do aluno para os elementos a seu redor e suas interações, utilizando-se da observação e demais sentidos, em um indiscutível viés para que reflitamos acerca de pensarmos nosso planejamento tendo como referencial a "realidade do aluno."

Em 1658, Comênio publicava seu Orbis sensualium pictus - O mundo em imagens - que viria a ser o primeiro livro didático ilustrado da História da Pedagogia. Figuras de animais e seres humanos, seguidas de onomatopeias para imitar seus sons e ruídos, acrescidas da primeira letra que representasse os elementos representados. Notadamente, fez-se uso do que era familiar aos educandos, de forma que aos alunos fosse possível experimentar in loco o que o livro trazia.

Cabe aqui registrar brevemente que os livros didáticos japoneses para as séries iniciais trabalham exclusivamente a partir do cotidiano dos alunos. Todas as ilustrações destes livros são uma representação dos bairros e das cidades nais quais vivem os alunos. Meu professor orientador no Japão na
Shimane University
- Akinori Hada - era representando do estado em que eu residia - Shimane - e consultor do Ministério de Educação japonês para a criação e publicação dos livros que seriam utilizados nas escolas. Desta forma, pude inteirar-me que, para o governo japonês, é imprescindível ao planejamento pedagógico das instituições de ensino japonesas sempre trabalhar a partir do entorno e da percepção de seus alunos dos elementos que os cercam.

Ficam aqui alguns questionamentos:

1. Partir da realidade do aluno é uma proposta utópica em nossa cultura?

2. Como livros didáticos que dessem atenção para o entorno do aluno fariam diferença no processo de ensino-aprendizagem?

3. Sob quais alicerces pedagógicos nossa prática reside?

Encerro com duas afirmações de Comênio: 

“Deve-se começar a formação muito cedo, pois não se deve passar a vida a aprender, mas a fazer.”

“Age idiotamente aquele que pretende ensinar aos alunos não quanto eles podem aprender, mas quanto ele próprio deseja.”


Referências bibliográficas:

FERRARI, Márcio. Título: Pedagogia - Comênio. Nova Escola on line.
Julho, 2008. Disponível em: http://educarparacrescer.abril.com.br/aprendizagem/comenio-307077.shtml Acesso em: 07 jul. 2009.

DOLL, Johannes; ROSA, Russel Teresinha Dutra da. A metodologia tem história. In: (orgs.). Metodologia de Ensino em Foco: práticas e reflexões. Porto Alegre: UFRGS, 2004, p.26-29






domingo, 6 de setembro de 2009

Sugestões de Atividades




Colegas, tudo bem?

Estudando muito? Não tenho dúvidas. Assim, nestes tempos de atividades do PEAD e mais nosso planejamento para nossas aulas nas escolas, seria muito bom ter acesso a uma cabedal imenso de sugestões de trabalhos, projetos ou simplesmente atividades prontas, as quais bastam ser impressas, desde que contemplem as necessidades de nossos alunos.

Pois tenho dois blogs que há muito gostaria de sugerir o acesso. O primeiro chama-se "Ajudinha Básica". Só o nome já indica do que se trata. O endereço é:

http://conectmar.blogspot.com/

O segundo blog tem bem mais atividades, mas um complementa o outro, o que torna interessante uma visita regular a ambos Este tem um nome que lembra qualquer conteúdo, menos uma "enciclopédia" de sugestões de atividades para várias anos do ensino fundamental: "Anjinhos de Pijama".

http://anjinhosdepijama.blogspot.com/

Não deixem de percorrer a coluna à direita do blog, a qual traz tanto links para as sugestões postadas quanto uma lista de outros endereços semelhantes na internet.

Obviamente que não estou a sugerir que limitemos a riqueza possível em nossas salas de aula sob a tutela de atividades pré-elaboradas.

Espero que vocês apreciem estas sugestões.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

* Educação de Jovens e Adultos *

Como professor de EJA desde 2003, observo que a educação continuada é indispensável àqueles que optaram por auxiliar os alunos que se inscrevem no ensino público noturno. A EJA é diferenciada das demais modalidades de ensino posto que trabalha com indivíduos que tiveram negado o direito de dar prosseguimento aos seus anos escolares em função de diversos fatores, dois quais destaco dois:

1. Quando nosso olhar é direcionado ao jovem aluno de EJA, percebemos temos um aluno que foi, numa flagrante maioria, excluído de classes "regulares" em função de uma avaliação unilateral, a qual afirma ter este mesmo jovem uma postura inadequada no cotidiano escolar. Não raro este mesmo aluno destaca-se na EJA por um viés oposto ao que determinou seu encaminhamento arbitrário, demonstrando não apenas um rendimento superior como um relacionamento professor-aluno e entre seus pares explicitamente enriquecedor.

2. Ao pensarmos o aluno adulto, percebemos que sua exclusão deu-se pela necessidade de atender inquestionáveis necessidades financeiras do seu núcleo familiar quando ainda bastante jovens. Grande parte dos adultos retornam nas séries iniciais do ensino fundamental, o que atesta a irresponsabilidade governista ao longo das últimas décadas.

Parece-nos que, não importa o quanto regressemos em uma linha de tempo, encontramos governos a adotar uma postura alheia a um encargo que é seu, principalmente quando os envolvidos pertencem as camadas menos favorecidas. As diferenças indecentes de renda e, conseqüentemente, dos padrões de vida, resultado de investimentos quase que exclusivos no plano econômico, inevitavelmente resulta em um detrimento do atendimento às necessidades de nosso sistema de ensino.

Desta forma, trabalhar com o aluno de EJA é estar a seu lado, acreditando que a construção do conhecimento de cada um “constitui-se fator preponderante para o resgate da autoconfiança, indispensável na aprendizagem, porém desacreditada e marginalizada, ao longo de praticamente todas as suas experiências, junto à uma sociedade letrada.”( Terezinha Fuck, 2003, p. 92) A escola não pode se furtar do papel que tem em relação a este aluno que a vê como uma última e derradeira esperança de acolhimento.

Referência Bibliográfica:

FUCK, Irene Terezinha. Alfabetização de Adultos: Relato de uma experiência construtivista. 10ª edição. Editora Vozes. 2003.

domingo, 28 de junho de 2009

Portfólio de Aprendizagem


É chegado o momento de concatenar ideias. E isso pode representar um momento estafante para alguns, exultante para outros, mas dificilmente estéril para alguém. 
 
Tendo que escolher entre duas obras cinematográficas para bem iniciar meu trabalho de final de semestre, optei pelo filme francês sugerido. Coincidentemente, ao necessitar fazer a opção entre uma produção e outra - francesa e nacional - percebi que estava diante de um conceito trabalhado, entre outros, neste semestre: preconceito.
Primeiramente, como citei no próprio portfólio postado em sua primeira versão, evitei totalmente descartar o documentário nacional sem mesmo antes assisti-lo, evitando embotar minha capacidade de apreciação de uma obra brasileira em função do estigma que a produção cinematográfica verde-amarela ainda carrega dentre muitos de nós. Do mesmo modo, precisei despir-me de um pré-conceito em relação ao cinema francês, muito comum entre aqueles que formataram seu gosto pela grande tela a partir da ótica norte-americana: que os filmes franceses seriam todos, inevitavelmente, enfadonhos e dados a temas bem escolhidos, mas com um pífio desenvolvimento da trama. 
Ao assistir o filme Entre os Muros da Escola notei que ele encontra-se mais próximo da minha realidade, nos melhores e mais execráveis exemplos. Convivo diariamente com uma escola que exclui e inclui, numa aleatoriedade que não está presente, pois segue um padrão que não fora registrado em lugar algum senão no subconsciente coletivo. 
Homossexuais seguem insultados. Obsesos não recebem diferente tratamento, pois ouvem todo o tipo de apelido depreciativo. Os mais calados, carentes e fracos são sobrepujados pela força do aluno dominante - o malandro, aquele que fala rápido, que é articulado ou que intimida pela força física.
Aqueles que obtém excelentes notas não são enaltecidos, não recebem cumprimentos elogiosos de qualquer parte. É uma rotina de total descaso pelo outro, de desesperança e flagrante entrega ao destino, como se nada pudéssemos fazer por novas vidas; como se nosso presente e nosso futuro não fossem o resultado de escolhas. 
Neste portfólio de aprendizagem, no sexto semestre, percebe-se um professor ora angustiado com tais injustiças que seguem sem reparo, ora exultante com experiências positivas. Que venham novas aprendizagens!

domingo, 21 de junho de 2009

Inclusão x Exclusão

Realmente é um tema que dificilmente se esgota: educação inclusiva. Para um alienígena em visita breve ao Planeta, soaria belo e tranquilo, desde que ele não conhecesse o cotidiano terráqueo e, mais precisamente, escolar.

Antes de tudo, é óbvio que eu defenda a educação inclusiva não em função de um decreto, posto que uma assinatura presidencial não muda posturas de imediato, exceto aquelas extremamente moldáveis. Para que abracemos um novo paradigma, precisamos ser convencidos a respeito. E o convencimento se dá de formas distintas de pessoa para pessoa.

Cada educador, um ser humano - portanto sujeito a falhas, egoísmos, mesquinharias, etc, mas não obrigatoriamente precisando trabalhar anos a fio sob tamanha carga - terá sua visão pessoal acerca da inclusão. Isso me parece ser indiscutível.

Porém, em um flagrante de ignorância e intolerância - que caminham juntas - nesta semana que passou presenciei o seguinte diálogo entre dois educadores(?) do ensino fundamental (procurei não modificar as palavras empregadas na fala de cada um):

- Pois é, tu veja o que tá me acontecendo. Tô eu lá com aquele menino que tem problema mental... O guri não faz nada, só quer brincar. Mas eu tenho uma turma de 4º ano. Eu tenho que dar satisfações, tenho que apresentar resultados.

- Mas ele não consegue fazer nada?

- Ele só brinca, pinta, joga com os outros colegas, mas não sai disso.

- E o que a escola já pensou a respeito?

- Eu quero que o menino volte para o Cebolinha (Escola de educação especial de Gravataí), pois lá ele vai receber a atenção que precisa.

Em primeiro lugar, quando a educadora(?), e aqui faço questão de usar a interrogação mais uma vez, diz para a outra "veja o que tá me acontecendo", ela já desloca o olhar para a sua pessoa, assumindo uma reflexão egocêntrica e sem qualquer resquício de preocupação para com o outro, no caso, o menino. Ao sugerir que ele nada faz, exceto brincar, pintar e jogar com seus colegas, esqueceu-se de que inúmeras habilidades este mesmo menino mostra já ter desenvolvido, mas certamente não como resultado do planejamento desta mesma educadora. Indo um pouco além, posto que a conversa foi bem maior do que aqui transcrevo, e que em nenhum momento ela usou o termo aluno em lugar de menino, resta-me crer que a professora nega àquela criança o direito de ser aluno da instituição. Como menino posso tratar qualquer criança do sexo masculino do entorno, esteja matriculada ou não na escola. Contudo, comumente referimo-nos às crianças vinculadas à escola por seu nome ou pelo genérico "aluno".

Ao mencionar que deseja DEVOLVER o aluno ao Cebolinha - não apenas encaminhar para algum trabalho que possa ser desenvolvido em turno contrário - simplesmente procura desvencilhar-se do que ela, sem nenhum pudor em meu comentário, encara como um problema. Finalmente, ao afirmar que na escola especial a criança vai receber a atenção que precisa, a mesma mestra (putz) esquece-se que é seu papel dar aquele aluno a tal atenção necessária, que não difere da atenção dispensada aos demais. Certamente este aluno exige mais atenção, ou solicite a presença da professora mais vezes, ou faça coisas que ela não tenha AINDA o alcance, o que é tudo muito normal. O que não consigo entender é como simplesmente despachamos, tal qual um objeto no correio, um aluno para outra escola simplesmente porque embotamos nosso pensamento frente a uma realidade que sempre esteve por perto, mas que até então ia bater na porta exclusivamente da Escola Cebolinha.
 
A fim de concluir esta postagem, ao ler o artigo da revista Inclusão Nº3 - A produção textual de alunos com deficiência mental - percebo o quanto o aluno com deficiência intelectual pode acabar sendo mal compreendido (avaliado) na evolução de suas capacidades. Segundo as autoras do artigo, professoras Rita Figueiredo e Adriana Gomes, ambas da Universidade do Ceará, "a análise do desempenho desses alunos deve contemplar não somente os avanços na escrita, mas também os ganhos na aquisição de atitudes tais como: cooperação, participação e interação no grupo, interesse por atividades relacionadas a leitura e a escrita tais como: leitura e contação de estórias, registros orais e escritos, desenho, modelagem e escrita do nome próprio."

Eis que me pergunto: não seria exatamente o mesmo olhar que devemos cultivar em relação a todos os alunos que compõem nossa sala de aula? 

Obviamente que todas as habilidades e competências trazidas pelo aluno e estimuladas em sala de aula são tão importantes quanto o registro de uma ideia em si. Isto é, a impossibilidade momentânea de registrar de forma escrita um pensamento não pode ser encarado como falta de progresso. As nuances são tão sutis no desenvolimento intelectual de qualquer aluno que ouso lembrar o que todos já sabemos: que cada aluno tem seu próprio tempo. Obviamente não estou baseado em "achismos", mas na experiência que todos já inventariamos, assim como "em pesquisas recentes" que reiteradamente "vêm indi-
cando que" alunos com deficiência intelectual "vivenciam processos cognitivos semelhantes aos" das demais crianças em uma sala de aula inclusiva quando nos referimos ao aprendizado da leitura e da escrita.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Um jeito novo de aprender - Zero Hora


Publicado em 10 de junho, o Guia do Ensino a Distancia de ZH é quase um portal para o EAD em nosso Estado. Obviamente faltaram informações indispensáveis, mas prefiro olhar para a matéria de uma forma mais positiva. Motivo? A Zero Hora, ao longo das várias páginas do Caderno, não poupou elogios merecidos ao EAD, deixou claro o perfil do aluno que se encaixa nessa modalidade de ensino e tratou de listar várias instituições que o oferecem. A este respeito, não deixa de ser inusitado que o caderno abra com uma foto minha, transcreva parte de uma entrevista que dei e, no espaço para os endereços das instituições que oferecem cursos a distância, os nossos cinco pólos de Pedagogia não são citados. 

Pontos elogiáveis na matéria:

  1. Destacar o que é preciso para ter um bom desempenho no curso;
  2. Para quem o EAD é mais recomendado;
  3. Vantagens e desvantagens desta modalidade de ensino;
  4. Formas de manter a motivação;
  5. Desafios para o professor e o aluno;
  6. Cuidados ao escolher a instituição e o curso.

Acima de tudo, fica meu reconhecimento ao jornal Zero Hora por juntar-se a nós, alunos, tutores, funcionários e professores da UFRGS, nesta empreitada pela valorização do ensino a distância, através do reconhecimento justo e merecido das ações empreendidas.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Autismo - O Musical


Gostaria de compartilhar uma fonte que pode fazer muita diferença em nossa tentativa de compreender o autismo, a criança autista na escola, na sociedade e na família, sem esquecer do que deveria/poderia estar disponibilizado para o desenvolvimento de um trabalho clínico e pedagógico. Pois ao longo de cerca de 100 minutos, o documentário Autismo - O Musical nos faz refletir, entender, rir, chorar, indignar-se, ter esperança, etc.
Porém, particularmente, o maior significado deste documentário está na sutileza (não confundir com máscaras) com que a diretora se utiliza a fim de DESTROÇAR qualquer imagem estereotipada da criança autista. Ao final do documentário estivemos no cerne de várias famílias com crianças e jovens autistas, contatamos professoras, encaramos as dificuldades para se fazer qualquer coisa por eles (os autistas),... Enfim, é um documentário que nos abre portas de inúmeras casas para que convivamos com toda a sorte de dificuldades e vitórias, assim como para encararmos desavenças entre os pais da criança e os outros,... ou a conciliação de objetivos. Autismo - O Musical (2007) é praticamente obrigatório.
Não se trata de uma obra do tipo "vou pegar na locadora ou ver na tv por assinatura com toda a família". Não é entretenimento: é ESCLARECIMENTO. E é inesquecível. Ganha disparado de qualquer filme que eu já tenha visto. É a vida real, e é belo, profundo e verdadeiro. Um momento no filme que merece ser visto e revisto: as crianças, todas autistas, cantando. Em uma das músicas, a letra diz: "Sabe quem eu sou? Eu não sou o que você vê." Tão logo assisti ao documentário, busquei na internet a opinião de outros que também o indicariam para vocês: "É uma história bonita e que se deve analisar mais a essência e menos os termos técnicos. Pretendo rever em breve. É o tipo de produção que vale a pena sentar no sofá pra conferir." "O documentário enfoca mais as pessoas do que o autismo em si." "O filme emociona sem ser piegas. Consegue mostrar sua história sem querer nos manipular. É difícil não se importar com estes personagens!" "...é uma das coisas mais lindas e comoventes que eu já vi – o filme faz com que a gente se envolva tanto que, no término dele, estamos sentindo um misto de orgulho, de amor e de carinho por estas pessoas, ao mesmo tempo em que ficamos com uma lição de vida e com um exemplo de superação."

Autismo - Os Pais


Afinal, como eles se sentem em relação ao filho autista? Certa ocasião, em um painel sobre crianças com necessidades educacionais especiais, ouvi da palestrante uma frase que jamais esqueci: "Em geral, os pais desta criança sentem que fracassaram." Foi um baque! Mas não é difícil entender em que teriam fracassado, pois os pais são cobrados para que o filho nasça saudável, cresça sem percalços, seja inteligente, obtenha excelentes notas, passe no vestibular (na UFRGS, claro!), não se envolva em atividades ilícitas, forme-se com distinção, etc.
A bem da verdade, o ser humano cria tantas expectativas que torna esta lista anterior praticamente infindável. E aqui entra a sensação de fracasso: que expectativas se permite um casal diante de um diagnóstico de autismo? A imagem corrente da criança autista segue sendo aquela do menino ou da menina apáticos, em um estado catatônico, sem travar qualquer contato com as pessoas a seu redor.
É fácil entender a frustração dos pais para consigo mesmos. Contudo, de mãos dadas com tal solidariedade para com eles vem a necessidade de esclarecê-los das possibilidades, que não são poucas, dentro do campo pedagógico. Até para que estes pais vejam em seu filho muito mais que uma criança de quem quase nada se possa esperar, é indispensável que eles sejam trabalhados antes, para que escola e família trabalhem em sintonia.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Fomentar a pesquisa


Precisamos fomentar em nossos alunos a capacidade de pesquisa (não da cópia pura), de seleção de dados, de registro de ideias, desde os primeiros anos na escola. Por vezes meus alunos, os pequenos, ficavam desgostosos comigo, pois eu sempre pedia um relatório das atividades naquele dia. Depois, experimentei deixar que registrassem apenas o que desejassem registrar. Quase a maioria passou a escrever sobre a atividade mais prazerosa. Isso me frustou, de início, pois é óbvio que, como professores, ao nos esmerarmos na confecção de um mapa ou na contação de uma história, gostaríamos de ver o registro escrito de uma dessas atividades... que praticamente sempre perdia para o futebol ou para os jogos.

Aceitei que os jogos - dama, xadrez, dominó, entre outros - eram prazerosos e que o mapa representava muito menos para eles.
Não precisei adaptar minhas atividades, digamos, bem menos interessantes, para que houvesse uma mudança. Com o passar dos dias, os alunos deixaram de registrar, pouco a pouco, as mesmas coisas. Perguntei a um dele, primeiramente, porque ele trocara o futebol pelo uso do material dourado. E ele me respondeu: "Porque com isso eu aprendi melhor matemática." Ou seja, aquele material teve um significado imenso porque possibilitou que ele tivesse uma melhor compreensão dos dados apresentados. Não que o futebol perdesse o sentido, mas a matemática e o material dourado ganharam significado também para ele. As idas ao telecentro, semanais, deixaram de ser registradas apenas como "ir na informática" e passaram a ganhar registros de acordo com o que era aprendido na sala de computação.
São apenas pequenas mudanças aos olhos desavisados, mas quão significativas para aqueles que percebem o que se encontra nas entrelinhas.


quarta-feira, 27 de maio de 2009

"Descoberto" novo continente


Seria cômico caso não fosse absurdo. Imagine o que você experimentaria se, ao consultar uma revista estrangeira, se deparasse com um mapa do Brasil em um caça-palavras sobre nosso País. Já seria um feito se não afirmassem que a nossa capital é Buenos Aires - sério, muitos estrangeiros pensam realmente que compartilhamos de capital com os hermanos. Imagine então o seguinte enunciado: encontre no caça-palavras os Estados de Brasília.
Com o mesmo estranhamento deparei-me com o passatempo acima. Os editores criaram um novo continente, este chamado de África do Sul. Obviamente que usei de um mapa mundi e pedi a meus alunos, antes de entregar o passatempo, que localizassem e mostrassem o Continente Africano, usando também a expressão África. A grande maioria dos alunos não hesitou ao apontar o continente vizinho. Perguntei-lhes se sabiam, em seguida, onde ficava a África do Sul. Dentre as negativas com a cabeça, ouvi duas respostas excelentes:
Primeira: "A África do Sul deve ser um pedaço na parte de baixo da África." Um milhão de elogios após tamanha dedução, escutei uma segunda resposta: "Deve ser um Estado da África." Uma resposta mais simples, mas com igual valor, pois busca no que conhece - estados brasileiros - uma ferramenta para chegar à resposta.
Pois a editora Lebru precisa usar do mesmo discernimento e dispensar a atenção devida às publicações que manda para as bancas.
Enquanto isso, que tal notificarmos a mesma sobre tamanha desinformação? O e-mail para contato com o leitor é sac@lebru.com.br
Também não seria mal se contatássemos a diretoria da editora, pois quem colocou em minhas mãos este lançamento foi um aluno do meu 4º ano, isto é, um ávido consumidor de palavras cruzadas. Os e-mails da diretoria são:
Lena Nucci:  lenanucci@hotmail.com
Thiago Barbosa: thiago@lebru.com.br
Minha turma já foi alertada para o equívoco. Não deixaria que a Lebru ficasse sem ser notificada de sua gafe.
Informações acerca da publicação:
Caça palavras
Editora Lebru
Ano 2
Nº 5
Nível Médio Leve 

terça-feira, 26 de maio de 2009

Refletindo sobre Autismo


O autismo é classificado como um distúrbio do desenvolvimento humano. A respeito do autismo a ciência ainda diverge e muitas questões se encontram por responder. O autismo não segue o que podemos chamar de padrão, pois apresenta diversas características. Conduto, basicamente o que se observa, geralmente antes dos três anos, são problemas para que a comunicação se efetive, assim como na interação com outras pessoas e no emprego do poder imaginativo.

É comum que o autista olhe para o outro como se através do seu corpo, justamente porque, para ele, a outra pessoa não se encontra necessariamente presente. Falar com o autista ou chamar pelo seu nome pode nada significar. Eles são indiferentes às pessoas, ou podem demonstrar verdadeiro terror. Contudo, também pode ser observada a passividade durante a tentativa de um contato, e até reações amigáveis. Há ainda aquele autista que age de forma inadequada, não necessariamente dentro do contexto. 

O órgão norte-americano Center of Disease Control and Prevention (www.cdc.gov) , traz em seu site que o autismo afetaria de 2 até 6 pessoas em cada 1000. O autismo seria 4 vezes mais freqüente em pessoas do sexo masculino.

Por muitos anos, o autismo tanto fascinou-me quanto provocou-me medo. Minha imagem de uma criança autista continua a ser aquela que os filmes projetam, os livros relatam e quase todos a nossa volta perpetuam. Não tive qualquer contato com autistas na escola, mas já tive um vizinho que apresentava comportamento (estereotipados) que provocavam certos comentários nas residências adjacentes. Lembro que ele ficava horas e horas com a língua para fora, agitando suas mãos ininterruptamente. Ele tinha um talento para música que era desenvolvido em sua própria casa e, mais tarde, com um professor. Nas leituras acerca da doença, estas características têm sido evidenciadas. Contudo, basta que comecemos a ler para perceber que não existe um padrão de autismo, o que nos convida a fugir dos estereótipos.

O autismo afeta certas áreas do cérebro, acarretando uma desordem comportamental, a qual passa pela comunicação e pelos relacionamentos basicamente.

A imagem que temos do autista é que eles vivam numa espécie de bolha, isto é, que construam um mundo próprio, silencioso, letárgico e passivo. A bem da verdade, quando uma criança autista fica em um canto, distante, observando outras brincarem, seu distanciamento não se dá pela apatia ou por estar em "outro mundo", mas porque a criança tem inabilidade para tomar a iniciativa de iniciar e dar continuidade a uma conversa, indispensáveis em tal contexto.

Como todo distúrbio, pude apurar que o autismo tem suas próprias características, que podem variar de um indivíduo para outro:

1. Inabilidade para interagir;

2. Problema para estabelecer e manter contato visual, empregar os ricos gestos e expressões faciais de que dispomos no cotidiano;

3. Extremamente seletivos na socialização;

4. Comportamentos repetitivos;

5. Interesse extremado em um padrão, como o movimento circular por exemplo;

6. Assumem manias, ou seja, rotinas cotidianas;

7. Podem desenvolver interesse por um determinado tema e falar insistentemente a respeito;

8. Movimentos repetitivos, como agitar, girar ou torcer suas mãos;

9. Fixação não no todo, mas em determinada porção, como o cabelo de uma boneca ou uma única roda de um carrinho. Esta mesma fixação pode se revelar em relação a outro ser humano, ficando a tocar em seu cabelo ou sua boca;

10. Surtar quando sua rotina é alterada;

11. Tendência a seguir ao pé da letra o que alguém diz, pela incapacidade de compreender a linguagem figurada ou uma expressão idiomática.



sábado, 23 de maio de 2009

Reflexões sobre o Vídeo - Atendimento Educacional Especializado


Logo no início do vídeo Atendimento Educacional Especializado somos lembrados que "deficiência não é sinônimo de incapacidade." Podemos, felizmente, ter acesso a um número de relatos imenso de casos de superação, fruto da atuação responsável da família e da escola. E é disso que se trata, basicamente, este vídeo: como trabalhar com esta criança.

Contudo, como qualquer dissonância (de cor, de orientação sexual, etc), o deficiente está praticamente fadado ao preconceito, o qual é SEMPRE fruto da ignorância e da insensatez. E o preconceito pode ser manifesto não necessariamente por meio de brados exaltados, dedos apontados ou caretas de repúdio. É o olhar raramente dirigido àquele lugar na sala de aula; é o tom de voz que muda sutilmente naquele que, por instantes, precisa dirigir a palavra (quando a criança ouve); é a maneira (e a ordem) como o material de trabalho lhe é entregue, por vezes quase descartado e, não menos verdadeiro, sempre para o final, pois o restante da classe precisa começar logo e é mais demorado fazer com que este aluno entenda. Quando esta criança fica para o fim, sob o pretexto de lhe dedicar mais tempo, que mensagem se está passando para ela: você fica para o final porque é lerdo OU já vou te atender com a atenção que mereces. 

Honestamente? As duas opções são péssimas escolhas, ainda que a segunda possa parecer aceitável. E por quê? Porque não concebo que alguém fique para depois ou, o oposto, antes que os demais numa situação que envolve tamanha interação, formação da personalidade e estruturação da psique humana. Todos precisam sentir e reiteradamente experimentar que são igualmente importantes no grupo.  
 
Tendo assistido ao vídeo, gostaria de destacar trechos que são o óbvio ululante para nossos mestres, mas pequenas descobertas para mim, recém chegado a uma face da educação para a qual eu não costumava olhar com a atenção que hoje dedico. Aliás, confesso ao grupo que estou, de fato, pensando em dedicar-me à educação especial. Mas isso ainda é muito tenro... Pensemos no agora!

Quando falamos em educação inclusiva, que elementos caracterizam a real inclusão no ambiente escolar? Quando se oportuniza espaços de convivência, de estímulos e de aprendizagem. Isso me reporta a uma colega de Escola, a qual tem um aluno com Down - que não é uma deficiência física como tratado neste fórum, mas que está ali, bem próximo a mim. Ele chegou em nossa Escola no ano passado, bastante acabrunhado. Via minha colega comemorando a chegada de Pedro (nome fictício) e não entendia, sinceramente, a razão. Hoje estou ciente que Pedro vinha de um ambiente de rejeição em função de sua doença e sua aparência, como se seus traços característicos representassem aos pais um motivo de vergonha perante os vizinhos. E nesta educadora, Pedro percebeu que existia uma atenção adequada para ele, na mesma proporção que os demais colegas recebem. Aliás, nos colegas Pedro descobriu potenciais amizades, e isso se foi construindo ao longo do ano letivo, por meio de inúmeras experiências e aprendizagens. 

No extremo oposto de tal experiência encontra-se a limitação de vivências, a segregação da criança. Segregar em função da deficiência é um obscurantismo cruel, perverso e contrário às mais elementares noções da ética, dos direitos humanos e das religiões que veem no ser humano a imagem do seu criador. 

Para fugir de tal obscurantismo, a escola precisa pensar sua prática cotidiana, começando lá pela projeto pedagógico e pelo seu regimento. Prática, projeto e regimento estão atrelados a um currículo. Em uma escola inclusiva, assim como em qualquer escola, nos deparamos com a necessidade de oferecer um currículo flexível, enriquecedor e instigante, o qual busque formar seres capazes de pensar, criar e construir o conhecimento.


quinta-feira, 21 de maio de 2009

Materiais adaptados


A proposta da disciplina de Necessidades Educacionais Especiais passava pelo que segue: “Pense na seguinte situação: você (...) gosta de realizar trabalhos com tesoura, picotar, pintar e completar. Mas neste ano, você recebeu na sua sala um aluno com Paralisia Cerebral, você se pergunta: e agora o que faço?”

É quase certo que estamos diante de uma daquelas perguntas inevitáveis. E é bem possível que o aluno tenha dificuldades motoras nos membros superiores que venham impedindo nos últimos anos a utilização de uma tesoura da forma como esperamos que os alunos possam utilizá-la. Pois conheci através do texto Atendimento Educacional Especializado tesouras que foram submetidas à adaptações. Posso estar enaltecendo demais algo de tecnologia tão simples. Entretanto, minha atenção costuma focar a criatividade, a inventividade do ser humano. E se não celebramos um instrumento com uma adaptação que usou materiais simplórios, então estamos a perder a capacidade de nos encantar, essencial no magistério.

No próprio fórum da disciplina dei destaque justamente a tais adaptações, as quais foram feitas usando materiais que temos, praticamente todos, na ferragem mais próxima ou, até mesmo, em nossas casas.

Temos a tesoura adaptada com arame revestido e uma segunda, a qual tem uma base de madeira, para aquele aluno que não pode apertar a argola da primeira, mas bater. Existe ainda um terceiro tipo de tesoura adaptada, que é uma tesoura elétrica controlada por acionadores. 

Se o problema é o manejo do lápis, a aranha-mola auxilia a criança no traçado de letras, desenhos, etc. O engrossador de lápis (de espuma, de borracha), a pulseira imantada e a órteses são outras alternativas, cada uma atendendo a uma diferente necessidade para o aluno com dificuldade de segurar o lápis e/ou fazer um bom traçado.

Ao longo dos meus estudos, flagrei-me a pensar: muito interessantes as tesouras e lápis adaptados. Mas onde encontrá-los e quem paga por eles?

Segundo o art. 61 do decreto nº 5296/04, o professor especializado, ao identificar com seu aluno os recursos de tecnologia assistiva (TA) que podem auxiliá-lo, orienta-o acerca dos seus direitos, a fim de que ele ou seus responsáveis possam recorrer ao poder público, buscando ter tal direito garantido. 

Tendo determinado com o aluno quais recursos de TA providenciam um melhor desempenho nas atividades de motricidade fina, entre outras, o professor irá cuidar para que este mesmo recurso acompanhe o aluno para a sala de aula e/ou fique com a criança, como parte de seu material escolar.

Quanto a avaliação, é considerado simplesmente tudo o que este aluno consegue fazer. A própria adaptação do aluno ao recurso já faz parte de sua avaliação. O processo como um todo e a criança em sua plenitude são a própria matéria para a avaliação.


Só por esta pequena postagem percebe-se que me encanto mais e mais com a educação especial. E os próprios materiais, muitas vezes quase simplórios, utilizados para trabalhar com estas crianças, não nos permitem afirmam que nossas escolas não podem preparar-se para recebê-las. Será que alguém ainda ousaria dar as costas a um aluno com paralisia cerebral? è que a inclusão por força de lei pode nunca acontecer, posto que um olhar indiferente exclui imediatamente aquele que, em principio, quer apenas ser aceito a seu modo.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

A importância da formação


O título é propositalmente dúbio e/ou vago. Afinal, faço referência a qual formação? Seria formação de opinião? Seria a conclusão de uma nova etapa na caminhada acadêmica? Ou estaria ainda a refletir acerca da formação do cidadão? São tão as possibilidades que poderíamos abrir vários fóruns para discutir a respeito das diferentes nuances oferecidas pelo léxico.
Mas o que me provocou a escrever mais uma vez foi uma interessante e instigante aula de Psicologia. Discutia-se acerca do método clínico. Todos praticamente haviam aplicado a testagem com massinhas, líquidos, entre outros materiais, com algum aluno nos dias que antecederam este encontro presencial. Nossa professora Simone ainda enfatizara a relevância de aplicar a testagem várias vezes, pois apenas deste modo vai-se lapidando as intervenções com a criança, percebendo onde se cometeu algum equívoco, em que momento uma resposta foi, porventura, induzida, entre outros aprendizados a que também estamos expostos naquele momento.
Foi nesse instante que nossa tutora Cristiane solicitou a palavra e disparou: "Pessoal, Jean Piaget jamais pensara nos professores quando desenvolvia sua teoria. Ele era um biólogo e estava mais interessado..." E ela continuou, brilhante. Contudo, inegavelmente a mais esperada contribuição da Cris foi justamente quando ela chamou a atenção de todos para a inexistência por parte de Piaget de alguma proibição expressa para isso ou aquilo que, infelizmente, é largamente afirmado em seu nome. São "verdades" como não se pode corrigir redações ou usar livros didáticos. Ainda segundo Cris, a correção da redação - que pode ser desenvolvida em várias etapas com a criança - é de vital importância para a formação de um ser social conhecedor de sua língua materna. Quando ao livro didático, não restou dúvida para os alunos: tanto este quanto outros recursos podem representar um vazio, ou se tornarem magníficas ferramentas numa sala de aula enriquecedora. É o uso que se faz de um recurso que lhe empresta valor ou não.
E repito aqui o que, pedindo a palavra, afirmei em sala de aula... 
Justamente pela carência de formação, esta mesma que se encontra em pleno curso no momento, acabamos "comprando" verdades de senhores e senhoras com nos citaram nomes de quatro ou cinco teóricos, impressionando-nos com sua erudição. Intimamente a questão estava posta: "Como questionar alguém com tal conhecimento? Vamos ouvir e colocar em prática o que nos é dito."
O que temos agora é um outro tempo, um outro educador, o qual se sente à vontade para contra-argumentar quando julgar necessário, jamais na tentativa - vazia - de expor ao ridículo uma teoria, mas justamente para dirimir as dúvidas que surjam, a fim de apropriar-se desta teoria estudada.
Assim, está mais do que em tempo de "devolvermos" as verdades adquiridas, buscando não mais em fragmentos mas na essência de cada teórico o que ele pode oferecer de modo a lapidarmo-nos cotidianamente em nossa prática.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Racismo em transmissão de rádio


Ouvia a Band News FM Porto Alegre nesta manhã de terça, dia 12 de maio, quando fiquei pasmo com a afirmação de um dos 3 comentaristas que dirigiam um programa sobre assuntos variados.

Eis que faltando cerca de 15 minutos para às 11 horas, um ouvinte manda um torpedo sobre os times do futebol gaúcho Internacional e Grêmio. Ao responder o torpedo, um dos comentaristas disparou: "Vocês do Internacional precisam aprender a torcer. Enquanto isso, tem que se dependurar em árvores mesmo." 

Não sou um fã ardoroso de futebol, mas o suficiente para fazer uma rápida análise do infeliz comentário...

Como aqui no sul os torcedores do Inter são chamados de macacos, numa alusão à seus torcedores de raça negra (como se apenas brancos torcessem para o adversário), o comentarista não perdeu tempo, mas cometeu um ato, no mínimo, infeliz, maldoso e, acima de tudo, racista, posto que para ele se uma passoa é negra é, da mesma forma, um macaco.

Entrei em contato com a equipe da Band News FM de POA, citando o fato reprovável comentário criminoso e recomendando, no mínimo, cuidado, pois em reparação em particular não acredito neste caso, exceto se exigido por quem tem poder para tanto (cada um de nós, a bem da verdade, com o auxílio da Justiça).

Contra toda a forma de proconceito!

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Modelos diretivo, não-diretivo e relacional


Penso que existe uma certa mística em torno do modelo X ou Y, algo como aquele é o melhor e os demais são o lixo produzido pela escola arcaica a qual, aliás, dizem que deveria ser queimada, para apagar tudo o que foi feito nos últimos séculos em matéria de educação.

Eu tenho muito de professor diretivo. E qual é o problema? Mas na minha interação com os alunos eu seria tomado por um professor que segue o modelo relacional. Então sou o quê? 

Sou um somatório de mais de duas décadas de experiência. Somente agora, vinte e tantos anos depois de iniciada minha caminhada no magistério, estou buscando um curso de Pedagogia. O Magistério (curso) indicou a direção e emprestou as rédeas; eu decidi se as usaria ou não, buscando por outras.

Ser diretivo é ter em mente uma lista de conteúdos para todo um ano letivo e adaptá-la de acordo com a turma, mas não abrindo mão de trabalhar com o que eles precisam saber? Então serei tomado como diretivo e tradicional. Mas isso é não eximir-se do compromisso primeiro da Escola!

Ser diretivo é brincar com seus alunos mas, na hora do trabalho, não abrir mão do silêncio necessário para a explicação que precisa ser ouvida? Então mais uma vez serei encarado como diretivo e tradicional. Mas isso é lembrar diariamente ao aluno que é impossível haver uma relação dialógica com todos falando ao memso tempo.

Ser diretivo é chegar na aula e passar a agenda do dia, deixando claro para todos os alunos a programação para as próximas quatro horas? Não, definitivamente não é! Isso é ensinar o aluno da importância de uma organização mesmo que mínima antes de uma atividade.

Em suma, professor tem que ser ouvido - o aluno fala a medida que pede permissão se o professor ainda estiver com o uso da palavra, pois este é um mundo no qual se tem alunos cada dia mais permissivos. E ficar achando que uma postura mais firme faz parte do século XIX é, com o perdão da gíria, entrar numa roubada. 

O aluno vem para a escola sabendo muitas coisas; ele não é um papel em branco. Mas precisamos nos assegurar que dentre tudo o que ele já sabe esteja incluso um item indispensável: respeito ao professor e a todos os que trabalham na escola. Careta? Retrógrado? Não, é assim que se forma um cidadão do bem.

Participação em aula é bom? É indispensável! Mas não confundir com baderna, dando a isto um nome moderno de \"barulho produtivo.\" É desejável que eles conversem entre si, mas que aprendam que tudo tem uma medida, inclusive esta troca constante de informações de todo o tipo, ou o trabalho vai ficando em segundo plano.

Poderia escrever muito mais, pois sou um defensor das relações não-permissivas nas escolas. E posso antecipar a quem porventura acredite que eu seja um carrasco, que os pais sempre pedem (nos períodos de matrícula) que os filhos sejam colocados em minha turma, e os alunos tem uma relação extremamente próxima a mim. Finalizando: os alunos apreciam perceber que há alguém no comando, pois isso os deixa mais seguros.